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Parando o Mundo

Paul Sylvain (Hombu Dojo)

Quando eu comecei Aikido há 7 anos atrás, eu achava que tinha uma boa idéia do que era Aikido e de quais eram os meus objetivos. Que idéia era essa não é necessário expor aqui já que cada um, com sua própria experiência, pode imaginar o que seja.

Após alguns anos de treinamento, eu pensei que já tinha adquirido "o conhecimento", pelo menos num sentido intelectual. Eu tinha também percebido que o Aikido tinha ganho um lugar permanente na minha vida. Devido ao que o Aikido tinha feito por mim, eu queria doutrinar todo mundo que se aproximasse de mim, mesmo num contato casual. Eu então esposava as virtudes do Aikido como uma arte marcial não competitiva em conjunção com as minhas concepçõessobre as explicações do O-Sensei a respeito do Kokoro. Isto, é claro, estava muito em moda na época. já que estávamos perto do grande influxo e da aceitação de professores orientais em círculos intelectuais ocidentais.

Esse processo prosseguiu por mais alguns anos, mas lentamente eu fui me tornando menos e menos inclinado a dar respostas a perguntas inevitáveis. Eu suponho que isto ocorreu porque eu estava passando por um processo de dialética interna a respeito da minha visão do Aikido e de suas realidades. As pessoas do ocidente, hoje em dia, estão sempre procurando "a resposta" e na América, quanto mais fácil ela é obtida, melhor e mais vendável ela se torna. A sociedade moderna tem uma necessidade genuína de reunificar o corpo, a mente e o espírito, já que nossa tecnologia graciosamente nos retalhou em pedaços, mas eu sentia que não podia dar mais respostas fáceis, já que eu mesmo estava na estrada outra vez.

Após mais alguns anos e alguns milhares de milhas, eu estou no japão, estudando e praticando, tentando descobrir o Aikido e também satisfazer o meu diálogo interno.

Uma coisa que eu percebi é que, como Heráclitos, "não se pode pisar na mesma água duas vezes". Todo o dia eu mudo, minha compreensão do Aikido muda, as situações mudam, as outras pessoas mudam - nada permanece o mesmo.

Assim, eu não tenho resposta, e nenhuma resposta me satisfaz plenamente, aliás eu acho que não quero uma "resposta". Pois, como está no TAO, dar um nome a ela seria limitá-la e fazê-la pequena. Em parte, esse artigo é uma reação àqueles praticantes que estão sempre dispostos a nos dizer o que é o Aikido. Eu ouço constantemente "Esse professor sabe o Caminho" ou "Este não sabe" ou então "Isto não é Aikido" ou "Isto é apenas Força". Essas atitudes, é claro pressupõem que a pessoa que as adota deve ter, internamente, a pista certa para esse conhecimento secreto ou talvez, como eu estou inclinado a acreditar, eles estão apenas tentando impor sua visão do mundo ao invés de "Parar o Mundo" como eu acredito que seja o que o Aikido nos tenta ensinar. Essa visão de parar o mundo foi explicada de maneira semelhante por D. Juan nos seus ensinamentos a Carlos:

"O que parou ontem dentro de você foi o que as pessoas vêm lhe dizendo sobre como é o mundo. Você vê, as pessoas vêm nos dizendo, desde que nascemos, o mundo é assim e assado e, naturalmente, nós não temos outra escolha que a de ver o mundo da maneira como as pessoas nos dizem que ele é".

A experiência de cada um no Aikido deveria ser no sentido de se "parar o mundo" e de lidar com ele como se estivéssemos partindo do zero. Idéias e reações preconcebidas somente atrapalham o nosso progresso na Arte e, portanto, elas devem ser eliminadas.

É uma armadilha muito fácil para um iniciante começar a definir o Aikido como sendo uma coisa ou outra. porque a pessoa possui ainda muito pouca referência devido ao seu limitado tempo de prática. Mas para um Aikidoísta com mais experiência, essa atitude me parece ser uma antítese completa do modo de ser do O-Sensei na medida em que ele chegava ao Dojo e dizia que o que ele tinha ensinado no dia anterior estava errado. Então, como é que nós, meros iniciantes, podemos ser tão assumidos das nossas posições a ponto de tentar influenciar os outros com o nosso "Mundo". Se isto parece uma tentativa de afirmar meu ponto de vista, acertou, porque realmente é. Jogue-o fora e comece outra vez, como eu já fiz. Pois como na "Viagem a Ixtlan":

"... No meu sentimento eu penso que estou apenas a um passo de alcançá-lo. Contudo, eu nunca o farei. Em minha jornada nem mesmo os marcos que eu conhecia eu acho mais. Nada é mais o mesmo".

Aikido aceita e rejeita, ao mesmo tempo, todos os pontos de vista. É um amor que contém todas as inconsistências e mudanças e cresce para permanecer sempre fresco e vivo - nunca o mesmo de um momento para outro.

Fonte: "Aikido", v.14, N° 4.